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UM CORAÇÃO MATERNO

O coração de Maria
Chegou um dia em que a presença de Maria deixou de ser visível aos olhos de seus filhos. Deus a chamou a Si. João, o discípulo-filho por excelência, a vislumbrará então gloriosa – Mãe, sempre Mãe – no céu. Assim descreve a sua visão no livro do Apocalipse: Depois, apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça. Estava grávida e clamava com dores de parto… (Apoc 12, 1-2).
Adivinha-se nesta imagem celeste a Virgem-Mãe, aquela que víamos associada ao sacrifício de Jesus, dando à luz com dor os filhos de Deus, ou seja, a cada um de nós. A visão de São João mostra-nos que, desde que foi glorificada no céu – Rainha coroada de estrelas –, Maria continua a ser até o fim dos séculos Mãe de todos os homens, dos que são filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo.
Uma das mais doces verdades da nossa fé é o mistério da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma aos céus. A cheia de graça, a que nunca pecou, não podia ficar sujeita à corrupção da morte, estabelecida por Deus como castigo do pecado. Por isso, a Igreja definiu solenemente – expressando uma verdade que, desde tempos antiquíssimos, era patrimônio da fé do povo cristão – que «a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, completado o curso da sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória do Céu»[1].
Eis a consoladora verdade: a nossa Mãe Santa Maria, na glória do céu, está agora junto da Trindade Santíssima em corpo e alma. Compreendemos bem o que isto significa? Quer dizer que Maria vive no céu cuidando de nós, olhando-nos, intercedendo por nós, com o mesmo coração, com os mesmos sentimentos e com os mesmos afetos que tinha na terra. Não é um puro espírito. É uma Mãe humana, glorificada, mas plenamente humana.
Agora, junto de Deus, Ela vê, na luz da glória divina, todos e cada um dos seus filhos em todos e cada um dos momentos da sua existência, e olha por eles: nas horas de alegria e de dor, nos transes difíceis, nos tempos de solidão, na suas quedas e nos seus reerguimentos… Não há um passo da nossa vida, não há um bater do nosso coração, que não esteja sendo acompanhado amorosamente pelo Coração humano da nossa Mãe. E não há um passo que não esteja sendo assumido – visto e auxiliado maternalmente – por esse Coração.
Nossa relação filial com Maria
Contemplando este mistério, São Josemaria apontava uma das suas consequências: «Surge assim em nós, de forma espontânea e natural, o desejo de procurarmos a intimidade com a Mãe de Deus, que é também a nossa Mãe; de convivermos com Ela como se convive com uma pessoa viva, já que sobre Ela não triunfou a morte, antes está em corpo e alma junto de Deus Pai, junto de seu Filho, junto do Espírito Santo»[2].
Tudo isso reforça a convicção de que a devoção, o relacionamento com Maria, deve ser essencialmente filial. O vínculo filiação-maternidade «determina sempre – lembra São João Paulo II na a Encíclica Redemptoris Mater (n. 45) – uma relação única e irrepetível entre duas pessoas: da mãe com o filho e do filho com a mãe».
Só perguntando-nos pelas características que tornam autêntico esse amor filial é que descobriremos os traços da verdadeira devoção a Maria Santíssima. Com isso, perceberemos também melhor o que Deus quis que representasse para nós a Mãe que nos deu morrendo na Cruz.
Comecemos pelos aspectos dessa devoção que se evidenciam de maneira mais imediata. Um cristão que vive de fé – como dizíamos – sabe que Maria o ama e o auxilia com carinho de Mãe. Sabe-a voltada maternalmente para ele. É natural que, dessa certeza, flua espontaneamente uma sincera afeição filial. «Nada convida tanto ao amor – comenta Santo Tomás – como a consciência de se sentir amado»[3].
A devoção mariana manifesta-se, por isso, em mil expressões, delicadas e fervorosas, de carinho de filho: no tom afetuoso da oração que dirigimos a Ela, na alegria de visitá-la nos lugares onde se quis fazer especialmente presente, nos muitos pormenores íntimos do coração, que o pudor vedaria externar.
Confiança filial
Juntamente com esse afeto filial, e impregnando-o intimamente, brota também espontaneamente um sentimento de profunda confiança. «Nunca se ouviu dizer – reza a oração Lembrai-vos, atribuída a São Bernardo – que algum daqueles que tivesse recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência, reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado».
Esta certeira confiança dos fiéis exprimiu-se num leque multicolorido de invocações marianas, que traduzem a segura experiência do coração cristão: Mãe de misericórdia, Virgem poderosa, Auxílio dos cristãos, Consoladora dos aflitos, Onipotência suplicante…
Amor e confiança. Trata-se de sentimentos com fortes raízes no coração. Ora é bem sabido que os afetos do coração possuem muitas vezes uma sutil ambivalência: são sentimentos que a custo se equilibram na difícil passarela onde o amor beira sempre o egoísmo. Não é raro que os muito sentimentais sejam também muito egoístas.
Por isso, se a devoção a Maria não estivesse fundamentada nos alicerces da fé – da doutrina da fé – e da caridade, poderia deslizar imperceptivelmente para os declives do egoísmo. Tal coisa aconteceria no caso de uma devoção meramente sentimental – não animada por desejos de entrega a Deus e aos outros – que, embora cheia de efusões de ternura, não incidisse fortemente na vida para modificá-la. Mais facilmente ainda se daria essa deturpação se a devoção mariana se reduzisse a um simples recurso para alcançar uma “proteção” ou uns “favores” meramente interesseiros.
Esses desvios, contudo, não se darão se o nosso amor a Maria entrar, como deve, em sintonia com o seu amor maternal.
Pensemos que o coração da nossa Mãe, “cheia de graça”, é uma fornalha ardente de caridade, de amor a Deus e aos homens. Nele se encontra, em medida quase infinita, a caridade derramada pelo Espírito Santo de que fala São Paulo (cf. Rom 5, 5).
Isto significa que quem se aproximar dEla com um coração reto e sincero se sentirá necessariamente impelido para o amor a Deus e ao próximo. Este é o segredo divino da devoção a Maria. Foi para nos “facilitar” a entrega a esse duplo amor – o primeiro dos mandamentos – que Deus, em sua misericórdia, quis dar-nos Maria como Mãe.
É por isso que a devoção a Maria, bem vivida, é sempre como um sopro – fecundo, cálido e suave – que inflama a generosidade e move a abraçar sem reservas a vontade de Deus.
«Se procurarmos Maria, encontraremos Jesus»[4], e ouviremos Ela nos repetir: Fazei tudo o que ele vos disser (Jo 2, 5).
Com razão pode-se afirmar que o amor de Maria por seus filhos é simultaneamente doce e exigente.«Nossa Senhora, sem deixar de se comportar como Mãe, sabe colocar os seus filhos em face de suas precisas responsabilidades. Aos que dEla se aproximam e contemplam a sua vida, Maria faz sempre o imenso favor de os levar até a Cruz, de os colocar bem diante do exemplo do Filho de Deus. E nesse confronto em que se decide a vida cristã, Maria intercede para que a nossa conduta culmine com uma reconciliação do irmão menor – tu e eu – com o Filho primogênito do Pai»[5].
Essa é a autêntica devoção à Mãe de Deus e nossa.


[1] Pio XII, Const. Ap. Munificentissimus Deus, de 01/11/1950
[2] É Cristo que passa, já  citado, n. 142
[3] Summa contra gentes, 4,18
[4] São Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 144
[5] Ibídem, n. 149

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