sábado, 27 de junho de 2015

Igreja como mediadora dos conflitos

Agitam o mundo dolorosos conflitos. Quem consegue mediá-los? Quem constrói a paz nesses campos de guerra: Oriente Médio, África, Ásia, América Latina, Europa? Em muitos cantos da terra, explodem ódios ancestrais, digladiam interesses econômicos escusos, travam-se combates entre facções religiosas. Cabe à Igreja algum papel nesse campo?
Que vem a ser realmente um conflito? Na sua raiz, existe um choque de interesses entre duas partes em sentido bem amplo. A natureza do conflito depende de que tipo de interesse se trata. Ele acontece no interior de uma família passa por dentro de classes e países até agitar nações. Mais: fala-se até mesmo de conflito no íntimo de cada pessoa. Que o digam os psicanalistas! 
Prescindindo do conflito pessoal ou familiar, há-os de nações, de poder, de raça, de cultura, de religião, de sexo, de classe, de status social, enfim verdadeira ladainha.

A Igreja católica proclama-se seguidora de Jesus. O primeiro olhar para trabalhar qualquer conflito concentra-se na maneira de agir de Jesus. Ele viveu em sociedade terrivelmente conflituosa. Os evangelhos acenam nas entrelinhas para tal fato. À guisa de exemplo. Logo no início, narram-se a prisão e a degolação de João Batista. Numa leitura simples e ingênua, alguém pensaria que se tratou de ofensa pessoal do profeta à vida íntima de Herodes, ao acusá-lo de assumir Herodíades, esposa de seu irmão, como companheira. Olho atento percebe mais. João mobilizava multidões. A polícia de Herodes e a dos romanos espionavam-no e já ensaiavam intervenção para evitar qualquer rebelião popular. E aproveitaram da circunstância do banquete de Herodes para liquidar João Batista. Jesus percebeu o perigo político de tal prisão. Os evangelhos mostram que Jesus, ao saber da prisão de João, retira-se para a Galileia e para lugares menos expostos. Ele antevia o conflito que sua pregação produziria e evitou o enfrentamento. Prudência pastoral.
No entanto, em dado momento, ele percebeu claramente que a vontade do Pai o conduzia a Jerusalém, no tempo da Páscoa, epicentro de toda conflutuosidade de sua missão. Além disso, entra na cidade como “messias” e expulsa os vendilhões do templo, desatando contra si a fúria das forças políticas da época. Sofre e morre dentro do conflito.
Que aprender de Jesus para o nosso comportamento, enquanto Igreja, em face dos conflitos? Primeiro, a prudência, não se expondo inutilmente. É o Jesus que se retira. E também coragem profética de interpelar as partes conflituosas quando entra em jogo o Reino de Deus. Jesus em Jerusalém.
Prudência e profetismo: dois pontos em tensão, mas não contraditórios. Difícil de manter o equilíbrio entre ambos. O papa João Paulo II deu-nos excelente exemplo de ambas as atitudes. Por ocasião das guerras do Golfo, tentou dialogar com as duas partes. Visitas, audiências de chefes de Estado, solicitações para soluções pacíficas. Mas, no momento em que ele percebeu a injustiça da guerra, interpelou fortemente os poderes beligerantes. Pediu que não se invocasse blasfemamente o nome de Deus para justificar a guerra.
A Igreja tem a vocação por excelência da reconciliação. Não significa pôr panos quentes e sim fazer tudo para que as partes em guerra se entendam e encontrem condições justas de paz. Quando, porém, a voz da reconciliação, do bom senso, da razão não se faz ouvir, cabe o grito profético de confronto para acordar as consciências dos homens públicos para a paz. Reconciliar no caso implica coragem, palavra forte que clama por justiça. E o lugar preferido da Igreja situa-se no meio dos mais fracos, dos invadidos, dos explorados mesmo que os invasores apelem por “ideais democráticos”.
O primeiro passo da mediação consiste em analisar, sob aspectos políticos, econômicos e culturais, as causas e raízes dos conflitos. Uma vez desentranhadas as motivações e pretensões dos grupos beligerantes, abre-se o campo para o juízo crítico sereno e objetivo. Os meandros das guerras enganam-nos muito. Os discursos políticos encobrem com freqüência a verdadeira trama em jogo. A suspeita paira sobre duas grandes forças mundiais, apátridas, inescrupulosas: a indústria armamentista e a exploração petrolífera. A primeira vive da guerra. Esta serve-lhe de fonte de rendimentos. Fará tudo para que se multipliquem os conflitos armados ou para que permaneçam graves ameaças a fim de levar os países a armarem-se até os dentes. O petróleo move a indústria. Territórios ricos nele facilmente se tornam campos de cobiça e de guerra.
A mediação da Igreja passa pelo grito da justiça e do combate constante contra essas duas causas maiores dos conflitos. Dificilmente se conseguem efeitos benéficos enquanto elas comandarem o mundo econômico. Só chegaremos à reconciliação baixando o facho do poder econômico que se alimenta das guerras.

http://www.domtotal.com/direito/pagina/detalhe/31927/igreja-como-mediadora-dos-conflitos

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