quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A alma que sofre isola-se no seu sofrimento

A alma que sofre isola-se no seu sofrimento.Qualquer bulício que se lhe faça em torno, de boa mente ela o tem por coisa alguma,porque está demasiado ocupada por dentro.No fundo dos corações feridos trocam-se diálogos apressados, agitam-se cenaspungentes, todo um sussurro de palavras entrecruzadas, variantes deste tema doloroso:Oh! como! Judas, tu... por um beijo... ou ainda: Eu nem sequer conheço esse homem de quem falais...Porque há a traição brutal dos Judas que beijam e que entregam.Há o medo covarde dos amigos que no momento do perigo nunca nos conheceram.A Igreja, que é a continuação de Jesus, terá de suportar essas duas traições; tem-notambém o cristão, e pelo mesmo título: ele continua Cristo.Desde aquelas duas feridas, Jesus, dolorosamente ocupado no interior, vai sobretudoguardar silêncio. Daqui em diante, é silenciosamente que Ele atravessará os pretórios e comparecerá perante os tribunais.A boca se fecha naturalmente diante da justiça que se torna injusta.Nós temos todos, gravados na melhor parte de nossa alma, um tal senso de justiça, uma tal confiança nela, uma crença tão viva de que ela paira, quando ela vem a faltar a este grande dever e se faz parcial evidentemente, achamo-nos sem palavras.Jesus autem tacebat.Já é doloroso ver um homem oprimido justamente pelos seus delitos ou pelos seuscrimes; é odioso senti-lo acabrunhado pelo ódio, pela opinião preconcebida e pelainjustiça, mormente quando vêm daqueles que são juízes.Jesus sentiu esta ferida interior.Sentiu-a viva e profunda quando Se viu no meio daquela malta de criados, naquela sala alumiada pelos clarões ainda agitados das tochas e principalmente quando se viu em face de Anás, o ex-sumo Pontífice.À primeira vista, a gente mal se explica que hajam conduzido o prisioneiro ao tribunal de Anás, visto não ser mais este sumo sacerdote: esta honra suprema coubera a José Caifás, seu genro. Mas, para os judeus, Anás permanecia sempre e apesar de tudo o sumo sacerdote tradicional.Eles se recordavam de que ele fora deposto arbitrariamente pelos Romanos, e não seesqueciam de que arbitrariamente Caifás fora imposto por aqueles mesmos Romanos.Os Judeus, como todos aqueles que perderam o seu antigo esplendor, aproveitavam amenor ocasião para lhe relembrarem o moribundo revérbero. Arrastaram Jesusprimeiramente até Anás como um protesto.Era pelo menos uma puerilidade, e era também uma bajulação para com o velho; eraprincipalmente uma satisfação dada à invejosa ambição deste. Anás bem que pretendia governar fizera escolher pelos Romanos... em qualquer caso, devia ver em Jesus um rival perigoso do velho sacerdócio que ruía.Sabia-se disso... e condescendia-se.E depois, aos olhos do vulgo, era começar acertadamente os debates o pô-los assim sob o alto patrocínio dele.Jesus, que compreendeu todos esses cálculos, sente-lhes vivamente o odioso, e quer,antes de entrar na via do silêncio, mostrar bem que não está sendo embaido em nada.Por isto, desde a primeira interrogação, responde com certa altivez, com certo desdém, que visa a provar que Ele não é nem conspirador vulgar nem obscuro agitador.Inquirem-no sobre a Sua doutrina e sobre os Seus discípulos, como se fosse só isto que estivesse em jogo.- Eu nada disse que seja secreto, responde Ele: a Minha doutrina todos a conhecem, eEu nada tenho a informar-vos sobre este ponto... todos os que aqui estão a ouviram;interrogai-os, eles poderão responder!...Isto Lhe valeu a bofetada de um bruto.- Por que Me baterdes? responde Jesus. Se falei mal, mostrai-o... porém se não faleimal, por que baterdes?...Essa bofetada provava a que grau de ódio mal contido e de violência disfarçada se havia chegado naquela assembléia convocada à pressa.Vai-se logo às vias de fato; já não é, pois, um acusado, é já um condenado.Jesus compreende-o tão bem, que muda então de atitude; a partir de agora calar-Se-á...Para que falar? os juízes são executores.Compreende-o igualmente Anás, e apressa-se a enviar Jesus, atado, ao genro. JoséCaífas morava em frente ao sogro.Era só atravessar o pátio largo e lajeado, aquele pátio onde se aquecia a tropa e onde Pedro já começara a sua lamentável negação.Jesus é arrastado, é uma passagem rápida, uma corrida de fachos; mal se pode distinguilO através dos soldados que O comprimem e O empurram.Ei-lo diante de Caifás, a sala está cheia. Devia haverem sentados a uma ponta, pelomenos vinte e três juízes, era o número estritamente necessário; sórdido, as testemunhas de acusação.A borra está sempre no fundo.Jesus está no meio. Entre aquelas duas massas sombrias, a Sua figura se destaca, nobre, alva, como que iluminada.Ele olha fixamente os juízes, e atrás ouve saírem murmúrios confusos daquela turbamalsã. O interrogatório que se queria legal começa. Tudo se faz segundo os ritos augustos da justiça, previu-se, aliás, até a mais pequena minúcia: os secretários lá estão; as testemunhas, subornadas e apanhadas não se sabe onde, lá estão também... há só uma coisa que se não previra... e que sucede... Jesus não responde.Nada Lhe pode abrir a boca altivamente fechada. O sangue lateja-Lhe ainda na facebatida pela bofetada: Ele sabe muito bem com quem está tratando.Jesus autem tacebat. Mas Jesus guardava silêncio.Nada era mais exasperador para os Seus juízes, o efeito falhava e o plano lhes abortava; como pegar aquele homem pelas Suas próprias confissões, se Ele nada diz e nada quer dizer obstinadamente?Aquele silêncio domina-os, vai esmagá-los.Então, para lhe atenuar o alcance, falam todos ao mesmo tempo, juízes, sacerdotes e testemunhas. Só Jesus, que devia falar, se cala.Que coisa mais augusta do que esse silêncio?Quando tudo se esboroa em torno de nós, conservemos ao menos essa dignidade dosilêncio. Deus o ouve, é o bastante.In silentio et in spe erit fortitudo vestra (Is. 30,15).
A Subida do Calvário
Pelo Padre Luís Perroy. S. J.
Editora Vozes
1957
IMPRIMATUR
Por comissão especial do Exmo. e Revmo. Sr. Dom Manuel Pedro da Cunha Cintra,
Bispo de Petrópolis, Frei Desidério Kalver-Kamp, O.F.M Petrópolis, 19-11-1957.

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