Mistérios Gozosos - Um tratado sobre a Pobreza Interior - 2º Mistério


2º Mistério - A Visita de Maria a sua prima Sta Isabel

Maria estava grávida de Deus. Poderia ter ficado absorta na contemplação deste mistério e esquecer-se do mundo. Porém, ao saber que sua prima Isabel, de idade avançada, estava já no sexto mês de gestação, decide viajar até lá e se submete a uma caminhada cansativa de vários dias. Maria não pensa em si mesma. Nela se realiza aquilo que Sta Teresa D'Avila dizia sobre a alma enamorada: "E vive até de si tão descuidada." Ela tinha clara consciência de que a gravidez de Isabel era de origem divina, pois, além de a idade de Isabel não permitir mais que ela gestasse um filho de modo natural, o fato lhe fora comunicado pelo próprio Gabriel. A gravidez de sua prima, portanto, estava relacionada com a sua. Era igualmente manifestação da vontade divina, vontade que Maria amava e a que estava sempre atenta.

E Maria se dispõe e vai. Ela nos dá nisso uma lição. Todos conhecemos casos nos quais, mesmo sabendo da vontade divina, nós nos negamos a fazê-la por exigir de nós um mínimo de esforço. Isto só demonstra o quão poucos estamos esvaziados e o quanto ainda defendemos as nossas bagatelas - nosso bem estar, nossa imagem pessoal, nossa opinião - mesmo quando é Deus Quem nos pede abrir as mãos e soltá-las. 

Maria foi e aqui, pela primeira vez, há um indício sensível do que tinha acontecido no seu íntimo. O seu esvaziamento foi tão santo que o Verbo divino, no seu seio, pôde, a partir da sua voz, comunicar-Se. Maria apenas saudou Isabel. Isto foi suficiente para que esta última ficasse cheia do Espírito Santo. Certa vez, escutei uma palestra em que se falava do significado de ser pessoa. A palavra "pessoa" vem de "persona" que significa originalmente "aquele pelo qual - através do qual - o som soa". Na ocasião, o palestrante tomou um sino e demonstrou que ele só soa devidamente quando vazio. Maria é um sino vazio através do qual soa a voz silenciosa do Verbo divino. Ela é, neste sentido, plenamente pessoa. A tradição também atribuirá o qualificativo de pessoa a sujeitos que possuam a faculdade de autodeterminação, isto é, que sejam senhores de si e responsáveis por seus atos. Pessoa é, portanto, aquele cujo comportamento não se explica de modo puramente causal. Ser pessoa, então, é ser livre, isto é, dispor de sua inteligência e de sua vontade. Maria era pessoa porque através dela soava a voz divina e também porque ela era plenamente livre, sendo o seu Sim a Deus expressão mesma desta sua perfeita liberdade. Podemos então dizer: é livre aquele que é vazio. Logo, é a soberba que nos enche, isto é, são os apegos e os caprichos que nos fazem decair da nossa condição de pessoas, que reduzem a nossa liberdade e que impedem a voz de Deus de soar através de nós.

Isabel ficou cheia do Espírito Santo porque Este encontrou alguém vazio por quem pudesse soar. E foi enquanto cheia do Espírito Santo que Isabel exclamou: "de onde me vem a honra de que a Mãe do meu Senhor me venha visitar?". Os primeiros efeitos do Espírito Santo são, pois, uma nova clareza a respeito da natureza íntima das coisas - ela intui quem é Maria e a Quem ela traz no seu ventre, pelo que a chama de "Mãe do meu Senhor" - e uma atitude de esvaziamento de si mesmo - "De onde me vem esta honra?", isto é, "não vem de mim mesma". 



E aqui acontece algo que considero tão bonito: João Batista, ainda no ventre de Isabel, percebendo a voz de Maria e, nela, a presença de Jesus, estremece. Quando medito nisto, sempre o relaciono a duas coisas. Primeiramente, a um trecho do livro dos Cânticos: "Meu bem-amado passou a mão pela abertura da porta e o meu coração estremeceu." (Ct 5,4). João sentiu a presença do seu bem amado pela porta - isto é, pela via aberta - chamada Maria. Em seguida, comove-me o fato de que o próprio João Batista, quando crescido, dirá de si mesmo: "o amigo do Esposo alegra-se sobremodo com a voz do Esposo" (Jo 3,29). Parece-me que esta afirmação possui os ecos daquela visita.

Maria fica com Isabel ainda por seis meses, ajudando-lhe nos seus serviços domésticos. Nos trabalhos mais ordinários, ela encontra ocasião de servir a Deus e à sua prima. A partir de suas disposições interiores e da presença do Verbo no seu corpo e na sua alma, ela transfigura o comum em divino. Viver com ela é viver o céu na terra, pois Maria, como morada de Deus, é um tipo de Céu. S. Luís Maria Grignion de Montfort chega a dizer que ela é o paraíso particular de Deus. 

A pobreza interior torna a alma humana em terreno fecundo de Deus. Peçamos à Virgem Maria que faça a nossa alma semelhante à sua, que nos dê o seu desprendimento e que nos converta em veículos puros de Deus.

http://amorepobreza.blogspot.com/2013/08/misterios-gozosos-um-tratado-sobre_9.html

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