quarta-feira, 12 de abril de 2017

A fé e a vontade de viver me ajudaram na luta contra o câncer

Tatiana Aquino testemunha sua luta contra o câncer

Aos 22 anos, em novembro de 2002, fui diagnosticada com um tumor no braço esquerdo, cujo nome era Rabdomiosarcoma Embrionário, um câncer raro em adultos. Nessa época, eu cursava o 3º ano de Nutrição, em Campinas (SP), e só restava mais um ano para eu me formar.
Saber que eu estava com câncer foi um choque, pois não tenho histórico familiar, era muito nova e tinha uma vida inteira pela frente, mas tentei encarar da melhor maneira possível. No entanto, no dia em que fui ao médico para saber mais informações a respeito desse tumor, ele me disse que, com o tratamento, eu não poderia ter filhos. Nessa hora, meu mundo desabou, senti-me impotente e não tive forças nem mesmo para sair do lugar. Eu já namorava o Lucas e tudo o que vinha à minha cabeça era que, provavelmente, esse fator atrapalharia nosso futuro juntos. Mas, aos poucos, fui me acalmando e entregando toda a minha vida nas mãos de Deus e de Nossa Senhora.
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Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com
Sempre quis saber a verdade sobre tudo o que ia acontecer comigo, sempre pedi para os médicos que me acompanhavam que eles fossem sinceros e me contassem tudo o que ia acontecer ao iniciar o tratamento de quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Assim foi feito. Antes de cada tratamento, eu era informada de todos os sintomas, e assim podia me preparar para receber cada um deles. Confesso que não foi nada fácil, pois, além de enjoos, vômitos, falta de apetite e dores, a queda de cabelo mexeu bastante comigo. Foi uma fase difícil, com um pouco de revolta e indignação, mas com muita fé e esperança. Depois de um ano de tratamento intenso, fui curada e pude seguir minha vida normalmente. A cada dois anos, eu repetia todos os exames necessários para saber como estava minha saúde.
Terminei a faculdade em 2004 e me casei em 2006. Fui abençoada por Deus com duas filhas lindas: Isabela (2010) e Gabriela (2012).
Em 2014, 12 anos depois do primeiro diagnóstico, fomos pegos de surpresa por uma recidiva do tumor, ainda no braço esquerdo. Mais uma vez, todos os medos e inseguranças vieram à tona e com maior intensidade. Havia apenas dois anos que minha sogra, Maria Zila, tinha falecido por complicações dessa doença que apavora muito as pessoas. Estávamos muito sensibilizados e ainda de luto, mas ela foi uma inspiração para mim. Mulher forte, guerreira, que tinha como principal motivo para seguir em frente seu esposo, filhos e netos; por isso não entregou os pontos facilmente. Então, mais uma vez, entreguei-me a Deus e a Nossa Senhora, clamando por misericórdia. Em nenhum momento, pedia que Deus tivesse misericórdia de mim, mas sim das minhas filhas, que eram tão pequenas e dependiam muito de mim.

Com fé, venci todos os meus medos e enfrentei mais essa batalha, fazendo uma cirurgia que durou mais de 12 horas. Foram quatro meses de quimioterapia e um mês de radioterapia, que terminou em dezembro de 2014. Depois desse tratamento, eu precisava fazer o controle da doença a cada três meses. Em março de 2015, fomos mais uma vez surpreendidos por mais uma recidiva. O tumor ainda estava ali no braço, mas estava descendo, o que era menos pior, apesar da sua agressividade.

Nesse momento, achei que já ia haver a amputação, mas os médicos ainda queriam tentar mais uma vez, com um tratamento que não é novo, porém, no Brasil, vem sendo feito há pouco tempo: a químio perfusão; resumidamente falando, é uma químio local feita em centro cirúrgico, permitindo que entre uma grande concentração de medicamento pelo sangue, atacando diretamente o tumor e não passando para o resto do corpo, pois essa concentração de medicamento seria muito tóxica e poderia até levar a uma parada cardíaca. Graças a Deus, consegui fazer essa químio em junho de 2015. Esperei mais três meses para fazer um novo exame.
Infelizmente, foram três meses de dor e sofrimento, pois meu braço ficou muito inchado e o edema fazia uma pressão muito grande. Eu tinha choques constantes por todo o braço e um formigamento que não tinha fim. Tive de aumentar muito todas as doses de medicação, entre elas a morfina. Enfim, o dia do exame chegou. Eu precisava ter 100% de necrose tumoral, mas, graças a Deus, só tive 90%. Muitos devem estar pensando: “Mas como ‘graças a Deus?!'”. Sim, graças a Deus, chegou a hora de cortar o mal pela raiz! Fazer a amputação não era só acabar com o câncer, mas, para mim, significava ter qualidade de vida, principalmente poder pegar minhas filhas no colo de novo e dar um abraço bem forte e demorado nelas, coisa que eu não podia fazer, pois o braço ficava em uma tipoia o tempo todo, e doía ainda mais se encostasse nele.

A amputação foi feita no fim de outubro de 2015 e foi um sucesso! No começo, foi mais traumático, pois tinha que me adaptar com a falta do braço, fisicamente falando. Mas não conseguia me adaptar com a dor fantasma, ou seja, para mim o braço continuava no mesmo lugar, posição e com as mesmas dores que eu sentia antes da amputação. Pouco a pouco, fui vencendo todas as etapas. Hoje, posso dizer que as dores reduziram bastante e já estou até fazendo o desmame das medicações que eu tomava. Faço tudo que fazia antes, dirijo, cozinho e cuido das minhas filhas, que conseguiram passar por tudo isso sem traumas, sabendo lidar muito bem com a situação e, principalmente, aceitando as novas condições em que eu me encontro: amputada.
Hoje, eu só tenho a agradecer, primeiramente a Deus e Nossa Senhora; agradecer ao meu marido, Lucas, e minhas filhas pela paciência, amor e carinho comigo. Agradecer a toda minha família pelo apoio, pois sempre estiveram do meu lado em todos os momentos; agradecer aos meu amigos próximos e não próximos, que torceram por mim; agradecer por todas as orações feitas para que eu ficasse curada.
Tudo o que eu passei foi um grande aprendizado de paciência, perseverança, união, amor e, principalmente, fé. Tenho certeza que me tornei uma pessoa melhor e mais humana.
Para você que está lendo este depoimento, não desista de lutar por sua família, seus filhos, amigos e por você mesmo. A hora de todos nós vai chegar um dia, mas não precisamos nos entregar na primeira dificuldade, seja ela qual for. Temos de erguer a cabeça e nos entregarmos nas mãos de Deus, pois só Ele sabe o que é melhor para nós e também o quanto conseguimos aguentar esse sofrimento.
Confie também nos médicos que estão acompanhando você, pois não tenho dúvidas de que Deus também vai estar agindo por meio deles. Além disso, o que me ajudou muito e foi fundamental na minha recuperação, foi o cuidado com a minha saúde mental. Fiz terapia quando achei necessário e nunca deixei a tristeza falar mais alto. Assim, consegui vencer, dia após dia, todos os meus medos, fraquezas e inseguranças com fé e esperança.
Hoje, considero-me uma pessoa feliz, pois estou ao lado daqueles que amo e que me fazem bem, independente de qualquer deficiência física, que para mim é só um detalhe.

Vanda Tatiana Romani Aquino 

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