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Nenhum sofrimento é em vão


As pessoas querem uma resposta mágica, uma técnica ou um truque para acabar com o sofrimento. Mas não existe

Nenhum sofrimento é em vão

Nenhum sofrimento é em vão. E eu não estou me referindo ao sofrimento que proporcionamos ao próximo. Estou me referindo ao sofrimento que, de certo modo, é um treino para nós. Nosso sofrimento é útil neste mundo, e isso é uma bênção que faz com que nossas perdas sejam um pouco mais fáceis de lidar.
Na noite passada, eu estava sentado na sala de estar no começo da madrugada e, enquanto revisava o texto de uma pessoa,  chegou um e-mail de um amigo. É um amigo divertido, e revisar o estilo de um texto, não é. Então, decidi abrir a mensagem.
Ele estava escrevendo do hospital. Um de seus amigos mais próximos acabava de ser internado, depois de três anos e meio lutando contra um agressivo câncer no cérebro. Ele me pedia conselho sobre como acompanhar seu amigo. Desculpou-se por me escrever com um tema tão doloroso, mas precisava de ajuda de verdade.
A longa noite no hospital
Meus pensamentos voltaram a três meses atrás, naquela longa noite que eu passei no hospital, sentado junto à cama de minha irmã. Era o fim de seis meses dedicados quase que totalmente a ela. Escrevi, aqui, sobre aquele último dia e noite. Foi uma dor inconcebível.
Por isso, tinha algo a dizer a meu amigo, algo que podia dizer com autoridade. Quando minha irmã agonizava –  e durante um tempo depois de sua morte –, as pessoas me diziam todos os tipos de coisas, com a intenção de ajudar e consolar. Recebi muitos conselhos, juntamente com a condolências fraternais. A intenção era boa e, geralmente, via verdade no que estavam dizendo. Mas, mesmo assim, queria que grade parte deles se calassem ou que se calassem e dessem o fora.
Alguns tentavam fazer que a coisa parecesse fácil. Mas, isso só piorava o problema. Inclusive, quando percebiam a dor, muitos falavam de algo que não conheciam. Talvez dissessem verdades, mas eram verdades não vividas.
Aqueles que tinham sofrido da mesma forma, raramente diziam algo. Já sabiam o que estava acontecendo. As poucas palavras que pronunciavam eram com autoridade. Inclusive seu sincero “sinto muito” significava muito, porque tinham passado pela mesma coisa.
Falavam com a solidariedade de amigos, de velhos companheiros. Eu me sentia como se estivéssemos ombro a ombro na guerra. Nenhum deles falava como se tivesse resposta. Não tinha de dizer muito, porque o que diziam era sempre útil. A compreensão deles era o suficiente.
A mensagem de resposta
Claro, respondi imediatamente ao meu amigo. E isso foi o que eu lhe disse:
As pessoas que passam por algo assim, geralmente, desejam uma resposta mágica, algum truque ou método infalível, algo que possam fazer e que sirva de ajuda de verdade. Sei isso por experiência própria. E também sei que não existe nada disso.
Minha resposta não é dramática e, talvez, não seja satisfatória. Mas, o melhor que você pode fazer é acompanhar seu amigo, somente isso: acompanhar.
Disse-lhe que, segundo minha experiência e o que aprendi com os outros, os agonizantes não querem nada de nós, não querem sermões, não querem interagir com a gente. Talvez, nós queremos isso, mas eles não. Não podemos fazer nada (com exceção da ajuda, na prática), além de estar com eles. Isso era o que a minha irmã queria.
Falei ao meu amigo sobre o fim. Minha esposa e eu ficamos sentados junto a Karen nos seus últimos dias. Era tudo o que ela queria. Não queria falar. De toda forma, não há nada para dizer. A maioria não quer escutar piedades, nem sequer ouvir sobre o que acreditam.
Então, me sentei com ela durante sua última noite, despois que ela tinha piorado claramente, até que decidiu que queria ir al hospital. Quando chegamos lá, por volta das 10 horas, ela já estava adormecida. Rezamos ao seu lado e,  depois, fiquei a noite toda sentado ao lado dela. Minha esposa, Hope, dormiu no sofá.
Eu pegava na mão da minha irmã e, de vez em quando, cantava. Talvez, em grande parte, por satisfação própria, mesmo que alguns especialistas afirmem que os agonizantes podem escutar tudo, inclusive quando pensamos que eles estão dormindo. Talvez, porque tinha escutado aquela música na rádio aquele dia, cantei várias vezes o primeiro verso de Long May You Run, de Neil Young. Não sei a que se refere o “coração cromado” da letra, mas “seu coração cromado brilhando sob o sol / longo seja o seu caminho” me parecia apropriado para ela.
De vez em quando, conversava com ela. Rezei muitas dezenas do terço. Chorei muito.
O fato de eu estar lá nos últimos dias era importante para ela. Rezo para que minha presença no hospital depois que ela dormiu também tenha significado muito para ela, mesmo que isso eu só vá saber no próximo mundo.
Mas o acompanhe, simplesmente esteja aí. É muito importante.
Isso foi o que escrevi ao meu amigo e lhe pareceu útil. O sofrimento daquele dia com minha irmã foi útil para aquele que precisava escutar alguém que já tivesse passado por essa experiência. É algo que alivia muito a carga, quando há muitas coisas que conspiram para lembrar a dor. Seu sofrimento não é em vão. Eles estão te treinando.

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