sexta-feira, 8 de abril de 2016

“Amoris laetitia” – Porta Aberta aos ventos impetuosos

papa-francisco

El Diario, 08 de abril de 2016
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com
Nota da Tradução: como já havíamos publicado, o Papa efetivamente abriu caminho às mudanças para os divorciados, além de muitas outras coisas, em sua nova exortação apostólica publicada hoje. O texto a seguir, apesar de apresentar otimismo diante de uma tempestade, expõe os pontos centrais e mais preocupantes do novo documento papal.
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Diante da doutrina rançosa, a realidade. “Acompanhar, discernir e integrar” — essas são as três palavras que definam Amoris Laetitia, a tão esperada exortação do Papa Francisco depois do Sínodo da Família. Um texto longo, denso, que evita condenações e abre a porta à comunhão na Igreja dos divorciados recasados, que admite as “bondades” dos matrimônios e uniões civis frente ao matrimônio “tradicional” e, sem dar receitas definitivas, adverte aos rigoristas que nem sempre há uma palavra final para tudo. “Nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais”.
“O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém”, clama o Papa, que pede para “evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações” porque “trata-se de integrar a todos”. Para Francisco, os divorciados recasados “podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas”.
“Não existem receitas simples”, reconhece o Papa, que se nega a “uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos”, mas um “discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares”, e que, em resposta à “lei da gradualidade”, se aplique “a lei da misericórdia pastoral”. Assim, recorda que “não estão excomungados” e que “devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis”, evitando o escândalo mas caminhando até “discernir quais das diferentes formas de exclusão atualmente praticadas em âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional possam ser superadas”.
“A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia”, argumenta o Papa, que critica os que agem como “controladores da graça e não como facilitadores”. Porque a Igreja “não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa”.
Quanto aos divorciados [sem segunda união], apesar de defender o matrimônio para toda a vida, o Papa reconhece, pela primeira vez na história, que “há casos em que a separação é inevitável. Por vezes, pode tornar-se até moralmente necessária”. O texto também se refere às dificuldades dos padres celibatários para entender os problemas das famílias, encorajando voltar os olhos à “longa tradição oriental dos sacerdotes casados” — o que indica a instauração de um caminho rumo ao fim do celibato obrigatório na Igreja do Ocidente.
Citações de Martin Luther King
Trata-se de um texto preciso, mas com muitas portas abertas, que ao longo de suas quase 300 páginas, divididas em nove capítulos e 325 parágrafos, encontra-se repleto de citações sinodais e de Papas anteriores, mas também de escritores e intelectuais como Erich Fromm [socialista alemão do século XX], Martin Luther King [pastor protestante e ativista político norte-americano], Jorge Luís Borges [escritor argentino], Octavio Paz [poeta modernista do século XX] e Mario Benedetti [poeta e socialista uruguaio], de quem copia seu fantástico “Se te amo, é porque és o meu amor, o meu cúmplice e tudo, e na rua, lado a lado, somos muito mais que dois” para falar do amor conjugal. Santo Inácio de Loyola, São Paulo e Santo Tomás são outros nomes literários do texto, que também conta com uma referência cinematográfica: “A Festa de Babette” [filme baseado em conto da escritora dinamarquesa pós-modernista Karen Blixen].
A primeira parte do texto contém uma forte autocrítica à Igreja do “não”, que lamentavelmente se instaurou nas últimas décadas. Assim, o Papa pede para “reconhecer que às vezes a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar aquilo de que hoje nos lamentamos, pelo que nos convém uma salutar reação de autocrítica”.
“Muitas vezes agimos na defensiva e gastamos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade. Muitos não sentem a mensagem da Igreja sobre o matrimônio e a família como um reflexo claro da pregação e das atitudes de Jesus, o qual, ao mesmo tempo que propunha um ideal exigente, não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera”, constata o Papa.
O documento, contudo, contém uma defesa sem matizes da vida humana frente ao aborto (“de modo nenhum se pode afirmar como um direito sobre o próprio corpo a possibilidade de tomar decisões sobre esta vida que é fim em si mesma e nunca poderá ser objeto de domínio de outro ser humano”), à eutanásia e à pena de morte, embora admita a necessidade de uma paternidade responsável.
O gênero
Apesar de não se deter a isso, o texto mostra sua preocupação com uma ideologia de gênero excessiva, mas reconhece que “na configuração do próprio modo de ser, feminino ou masculino, não confluem apenas fatores biológicos ou genéticos, mas uma multiplicidade de elementos”, e admite que “o masculino e o feminino não são algo rígido”.
O Papa também se refere ao abuso de menores, especialmente na Igreja. “O abuso sexual das crianças torna-se ainda mais escandaloso quando se verifica em ambientes onde deveriam ser protegidas, particularmente nas famílias e nas comunidades e instituições cristãs”.
Quanto às uniões não matrimoniais, o Papa reconhece que “já não se adverte claramente que só a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher realiza uma função social plena”, e, apesar de reconhecer que “não podem ser simplistamente equiparadas ao matrimônio”, aponta que “devemos reconhecer a grande variedade de situações familiares que podem fornecer uma certa regra de vida”, inclusive “as uniões de fato ou entre pessoas do mesmo sexo”.
No entanto, e embora denuncie “qualquer sinal de discriminação injusta” contra os homossexuais, Francisco não move uma vírgula da doutrina tradicional ao reiterar que “não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família”.

http://www.padremarcelotenorio.com/2016/04/amoris-laetitia-porta-aberta-aos-ventos-impetuosos/

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