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Sempre de novo esse lado aberto

O lado aberto à semelhança de Adão deixa sair não a mulher que, por seu erro, gerou a morte, mas a fonte da vida que com a dupla torrente vivifica o mundo. Uma, no batistério, nos renova e cobre com a veste imortal; outra, à mesa divina, alimenta os renascidos como leite aos pequeninos (Teodoreto de Ciro, sec.V).
1. Nunca nos cansamos em refletir sobre a beleza do Deus humanado. A encarnação do Verbo é a gramática da bondade do Senhor. Abeiramo-nos do insondável mistério desse Altíssimo que não consegue reter para si o fogo de seu amor e quer que todos sejamos nele inflamados. Todos aqueles que fomos tocados pela encarnação do Verbo comprazemo-nos em contemplar os passos de Cristo Jesus. Continuamos a citar Teodoreto de Ciro discorrendo a respeito dos últimos momentos da vida de Jesus: “Chora sobre Jerusalém que pela incredulidade atraía para si a ruína e prediz a suprema destruição do templo outrora famoso. Com toda paciência suporta ser batido na cabeça por um homem duplamente escravo. Esbofeteado, cuspido, injuriado, atormentado, flagelado e, por fim, crucificado e dado como companheiro de suplícios a dois ladrões, contado entre os homicidas e celerados. Bebe o vinagre e o fel produzidos pela má videira, coroado de espinhos em lugar de louros e cachos de uva. Escarnecido com a púrpura, batido com a cana, ferido o lado pela lança e enfim levado ao sepulcro” (Teodoreto de Ciro, Liturgia das Horas IV, p. 77).
2. Teodoreto fala do lado aberto como fonte de vida. Estamos familiarizados com esta imagem do peito aberto do Coração do Redentor. Gostamos de permanecer em espírito de contemplação diante da cena final de sua vida, mormente quando João nos fala que um soldado, depois que Jesus estava morto, abriu-lhe o lado e vimos correr sangue e água. Gostamos de recordar, de acordo com o ensinamento dos Padres da Igreja, que o peito aberto de Jesus é fonte de todas as graças. Mais ainda, gostamos de tomar consciência de que o sacramento da Igreja nasce dessa fonte.
3. Realidade estupenda e maravilhosa! Foi do Coração do Esposo traspassado que nasceu a Igreja que atravessa impávida os tempos. Não apenas a Igreja com seu aspecto que está sempre se reformando. Mas essa Igreja eterna dos hinos de Gertrud von Le Fort e que continua no tempo, esse prolongamento da Encarnação que é a Igreja na qual vivemos e na qual queremos permanecer firmes para sempre. Ora, essa Igreja santa que vive no meio de nós tem seu esplendor porque que sua força lhe advém dos rios de água e de sangue que brotaram do lado aberto do Redentor crucificado e glorificado no alto do madeiro.
4. Verdade, a Escritura diz que Deus deu um sono a Adão e de sua costela, de seu lado, tirou a mulher, Eva. Os dois não foram fiéis: nem Adão, nem aquela que veio de seu lado. Do lado aberto do novo esposo, de Jesus sai uma dupla torrente. Logo após sua morte houve a abertura do seu lado. A fonte do lado aberto faz brotar dois sinais da presença do Cristo no meio do mundo: o batistério e a mesa divina.
5. Normalmente, na Igreja dos começos, eram os adultos que pediam para nascer de novo. Entrando em contacto com a maravilhosa figura de Cristo ressuscitado e vivendo no seio da comunidade, homens e mulheres iam aos poucos decidindo orientar sua existência mais profunda a partir e na direção desse deslumbrante Cristo Jesus. Despiam-se do homem velho, jogavam fora as roupas antigas. Teodoreto de Ciro diz que, no batistério, um dos rios do peito aberto nos renova e nos cobre com a veste da imortalidade. Tudo isso se operou na maioria dos católicos na primeiríssima das infâncias, sem que pudéssemos disto ter consciência. Em nossos dias a Igreja fala muito de uma pastoral que venha a ter a função de “iniciação” cristã. Em outras palavras é preciso uma tomada de consciência de que estávamos nus, sem amanhã, sem casa, sem destino. O Senhor nos mergulhou nas águas do batismo e nos renovou. A força da água que dá vida, mas sobretudo o vigor desse rio que veio o lado aberto. Prostrados à beira do caminho no batismo fomos ungidos com os óleos que curam, recebemos uma pitada de sal para termos gosto pelas coisas do alto, foi nos dada uma vela acesa para simbolizar a iluminação. Que maravilha essa renovação que nos reveste de imortalidade. Na primitiva Igreja os neófitos, “os brotos novos” se vestiam de branco durante oito dias. Uma purificação que tem sua fonte no lado aberto.
6. Teodoreto de Ciro fala também da mesa divina. Trata-se, com toda evidência, da Eucaristia, essas mesas das toalhas brancas que conhecemos desde a nossa mais tenra infância. Teodoreto fala de uma fonte que, à mesa divina, alimenta os renascidos. Que tesouro esplendoroso esse da Eucaristia. De manhã cedinho um grupo de religiosos ou de religiosas, quando o dia ainda não chegou, se reúnem para fazer a memória do Senhor e ganhar força para viverem o esplendor de sua consagração a Deus. Numa capela de um seminário o bispo, no final da reunião de pastoral, concelebra com seu clero, os pastores das comunidades da Igreja local. Num dia de domingo chegam idosos e jovens, crianças e adolescentes com sua vida, sua história, seu desejo de não definharem em sua caminhada espirutal. O canto solene, as procissões rituais, a claridade no templo, a proximidade dos irmãos, o abraço da paz… tudo isso faz o encanto da vida daqueles que renasceram das águas da primeira fonte. Agora, juntos, na força alimentadora do amor fraterno, se aproximam da mesa divina onde os renascidos se alimentam como um leite que é dado para continuação da caminhada dos que são novos.
7. Somos gratíssimos a esse Jesus e ao seu lado aberto: “Escarnecido com a púrpura, batido com a cana, ferido o lado pela lança e enfim levado ao sepulcro”.

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