As duas Mães


Aquele albergue Meia-Lua não gozava de boa fama, O albergueiro era um homem que perdera os bons princípios cristãos que sua piedosa mãe lhe inculcara. Era pouco escrupuloso e recebia em sua hospedaria toda casta de gente. Um dia hospedou-se ali um personagem misterioso, que, ao retirar-se, o chamou à parte e lhe disse: “Amanhã virá hospedar-se aqui um jovem embuçado. A noite tu deves assassiná-lo; a recompensa será esplêndida; nesta bolsa tens a metade do salário”, acrescentou, entregando-lhe e subindo à sua carruagem. O albergueiro, à vista de tanto ouro, decidiu-se à aceitar a proposta, pois, no «dia seguinte, empunhando um punhal, silenciosamente se dirigia ao aposento do jovem embuçado, que tinha chegado à tardinha.
Antes, porém, de entrar no aposento, o albergueiro parou impressionado diante de um quadro da Virgem Dolorosa que recebera como lembrança de sua mãe: “Senhora minha — disse — não quero que presencieis o meu crime!” E, ao virá-lo contra a parede, encontrou esta palavra de sua mãe: “Lembra-te que tua mãe te espera no céu!”.
Duas mães que suplicavam e cujos corações ia despedaçar. “Não — disse, arrojando o punhal — eu não quero ser assassino! Não quero fazer chorar as minhas duas mães”.
Meia hora mais tarde chegava o hospede da véspera para ver, se ele cumprira a palavra.
— “Perdoai-me, senhor — disse o hospedeiro — pois nisso não pude servir-vos”.
Com um leve sorriso nos lábios disse o outro:
— Dá graças a Deus por teres vencido esta prova. Eu sou ministro da justiça e vim averiguar se era certo quanto se dizia deste albergue. Se tivesses entrado no aposento, quatro soldados disfarçados te haveriam agarrado imediatamente. Guarda esse dinheiro, mas não recebas no albergue senão gente honrada.
O amor as duas mães foi quem o salvou.

Tesouro de exemplos do Padre Francisco Alves, parte 179

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