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Condenadas à Perdição

Segundo pesquisa, no Brasil, 90% dos transgêneros estão fadados a trabalhar na prostituição.
Aos sem acesso à formação e experiência resta a prostituição.
Por Alexandre Kawakami*
Ao contrário das lésbicas, dos gays e dos bissexuais, os problemas encontrados pelos transgêneros, especificamente as mulheres, no mercado de trabalho, são assustadores.  Como comentei no primeiro artigo desta série, as condições de acesso dos transgêneros ao mercado de trabalho são desesperadores. Vale a pena repetir os números: num estudo conduzido pelo Conselho Europeu, apenas 31% dos transgêneros está regularmente empregado. 23% dos transgêneros responderam que já tiveram de trocar de emprego por discriminação. Apenas 30% eram tratados com dignidade por seus colegas. 42% dos entrevistados respondeu que não poderia assumir sua identidade de gênero por medo de perder o emprego ou arruinar sua carreira.
As estimativas no Brasil são ainda mais catastróficas. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 90% dos transgêneros estão fadados a trabalhar na prostituição. Os transgêneros sem acesso à formação e experiência específicos não tem qualquer outra alternativa. É o caso de X. X mora em uma das pensões destinadas a prostitutas transgênero de Belo Horizonte. Antes de iniciar seu processo de transição ou mesmo adentrar à vida noturna, X havia sido premiada como funcionário do ano na empresa em que trabalhava. Motivada pelo reconhecimento, decidiu, no dia seguinte, relatar a seu gestor que havia decidido iniciar seu processo de transição de gênero. Foi despedida no dia seguinte.
Mas a situação não melhora nos casos onde as transgêneros têm educação, habilidades e experiência. Reproduzo o relato de Daniela Andrade, militante do movimento dos transexuais:
“Há alguns dias estive em uma entrevista. Ao telefone, a recrutadora disse que meu currículo era perfeito para a vaga e marcou o encontro. Quando terminamos a entrevista, ela disse que entraria até o final da semana em contato comigo para falar quando seria a próxima etapa do processo seletivo, e perguntou-me se eu tinha empresa aberta em meu nome (a vaga era como PJ [como geralmente acontece nessa área], ou seja, você precisa ter empresa aberta em seu nome para emitir nota fiscal). Relatei que acabei de ter uma decisão judicial favorável à mudança do meu nome por eu ser uma mulher trans, e que, em razão disso, pode ser que demorasse um pouco para eu conseguir a alteração de todos os meus documentos e a retificação do registro da minha empresa na Junta Comercial e Receita Federal. Foi quando ela perguntou: "como assim, mulher trans?".
Expliquei para ela que se tratava de transexualidade, e que as pessoas transexuais eram aquelas que não se identificavam com o gênero imposto quando nasceram.
Ela então retrucou: "Isso significa que você nasceu homem?”.
Respondi: "Isso significa que nasci com determinado genital, mas me identifico como mulher".
E ela fez uma cara de interrogação e terminou: "Vou ver com o gestor da vaga se ele aceita essa condição". Despediu-se de mim em seguida.”
Desnecessário dizer que Daniela não foi contratada.
Uma sociedade que obriga transgêneros a venderem seus corpos e sua dignidade para que possam ser o que acreditam ser em sua plenitude é uma sociedade profundamente injusta e hipócrita. Mas esta situação não é a pior. O pior é tentar resolver esta injustiça através de lei. É ineficiente porque, se implicar na proibição da demissão do transgênero, implicará necessariamente na proibição de sua contratação. Se resultar na aplicação de sistema de cotas, qual seria inda sua eficiência se os empregadores e colegas de trabalho não estiverem preparadas para aceitar uma pessoa que é, visualmente, inerentemente distinta? Terão dignidade? Serão vistas de forma igual entre seus pares?
A aceitação dos transgêneros é uma daquelas questões onde apenas a tolerância, o amor ao próximo e um pouco de inteligência podem intervir de forma eficiente. Menciono a inteligência porque um transgênero, como qualquer minoria sujeita a preconceito, tem sempre mais a provar do que os que são considerados “normais”. E por isso se esforçam mais. 
Mas até chegarmos a este ponto, só a nossa compaixão oferecerá algum alento.
*Alexandre Kawakami é Mestre em Direito Econômico Internacional pela Universidade Nacional de Chiba, Japão. Agraciado com o Prêmio Friedrich Hayek de Ensaios da Mont Pelerin Society, em Tóquio, por pesquisa no tema Escolhas Públicas e Livre Comércio. É advogado e consultor em Finanças Corporativas.
http://domtotal.com/noticias/detalhes.php?notId=921560

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(Elam de Almeida Pimenttel)