terça-feira, 22 de julho de 2014

Reze assim, não reze assim



Oração. A catequese deste domingo volta ao tema da oração. Devemos rezar sempre e sem cessar, ensinava o Senhor no domingo passado. Devemos rezar de forma despojada e humilde, ensina o Senhor neste domingo. Dois homens foram rezar ao templo. Entraram ambos, um até ao Santíssimo; outro até à porta. Um entrou cheio de si, o outro sentia que nada valia. Um entrou convencido que era dono do Céu, o outro sabedor que nem para o Céu deveria olhar. Porém, o Céu oferece-se a quem quer, não a quem se quer seu dono.

REZE ASSIM

Bom dia, Senhor!
Eis-me, não sei como, mais uma vez em Tua casa.
Venho talvez por inércia; entro talvez por entrar.
A verdade, porém, é que só encontro descanso
debaixo das Tuas telhas.
Tu sabes que estou aqui
como se não tivesse mais para onde ir.
Eu só quero ficar junto de Ti,
mesmo se muitos me dizem ‘Vem para aqui!’.
Eu não mereço entrar, não mereço achegar-me.
Não mereço, mas é só aqui que eu encontro paz,
a paz que nem o sono da noite me traz.
Quisera, Senhor, nada valer para alguém,
estar simplesmente aqui,
mesmo duvidando se mereço e se me aceitas.
Raras são as noites em que o sono me refresca
e dá descanso à minha peleja.
Raras são as noites de lua bem alta e atenta
em que aqui não venha em penitência.
Ah, Senhor, Senhor,
nada mais me resta da minha inocência,
da minha abastada ciência
e por isso hei-de aceitar que me acolhes
ainda que me olhes com olhos que não sei.

Porque a vergonha é o meu manto,
e a pena o meu pranto, a Ti, meu Santo,
eu não me atrevo a olhar.

Cansado que sou não sei que diga,
embora uma ideia me persiga de que Tu, Senhor,
só Tu, Senhor, sabes aguardar quem tão a jeito,
quem tão pecador a eito se faz tardar.

Algo, porém, me diz ao fundo da alma,
que toda esta paz e esta calma que não mereço
são o átrio do teu amor em responso
a tantos pecados de que eu não me esqueço.

Porque, Senhor, és assim?
Porque me forças a reconhecer que és bom,
quando sei que nada valho, que me enganei,
que perdi, que tardei, que me assustei e fugi?

Porque és assim e me obrigas a confiar?
Porque me obrigas a erguer se me afeiçoei à lama?

Do que me deste nada mais tenho que lágrimas,
que aprendi a chorar com a Mãe ao perto.
São-te familiares,
aceita-as até que o mar chegue ao deserto.

Aceita-as, nada mais tenho para Ti.
E deixa-me descansar aqui.
Amen.

NÃO REZE ASSIM

Meu Senhor e meu Deus,
meu bom Pai, Altíssimo Senhor!

As horas do meu dia são demasiado curtas.
Porém, a lufa-lufa jamais me impediria
de aqui vir para Vos louvar e agradecer.

É certo que não gosto do cheiro desta igreja,
que acolhe gente sem princípios
de higiene.

Compreendereis, Senhor, que antes de vir
tive de passar pela feira e pela loja
para controlar os empregados
desassossegados, exigentes e mandriões.

Foi por isso que me atrasei
e agora tenho de aguentar o cheiro desse pedinte
que se encontra bem atrás de mim.

(Desculpa, Senhor, mas, coisa banal,
deveriam ser obrigados a tomar banho...,
porque, enfim, como se pode vir
à Vossa Santa Presença cheirando mal?)

Para Vós, Senhor,
(Já eu o aprendi da minha santa mãe,
que Vós tendes de ter em justo descanso!),
para Vós devemos sempre reservar o melhor:
os melhores ideias, os pensamentos puros,
a melhor cara, as melhores horas do dia!

Sabereis que Vos dou sempre o melhor,
porque sei que retribuis com justiça.

Mas aqui em baixo quisera eu já justiça justa
para esses calaceiros, chupistas e mandriões, 
esses sarapintas cheirando mal à minha volta.

E agora, Senhor, urge deixar-Vos:
O tempo é curto e devo ainda fechar a caixa.
Amen.


Chama do Carmo I NS 200 I Outubro 27 2013

http://chamadocarmo.blogspot.com.br/search/label/humildade

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