segunda-feira, 14 de julho de 2014

PORTADOR DO PERDÃO DE DEUS

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]
Voltemos de novo ao primeiro dos episódios antes relatados, o da batina enxovalhada de cal, porque essa história teve sequência. Enquanto os alunos da Academia Cicuéndez comentavam, espantados, o que tinha acontecido, outro professor lhes falou de um lado desconhecido da vida do Pe. Josemaria Escrivá que os deixou intrigados.
Contou-lhes que esse jovem sacerdote, intelectual de nível, formado em direito pela universidade de Saragoça, em teologia pela Pontifícia Universidade da mesma cidade, e doutorando em direito pela de Madrid, dedicava-se a atender centenas de pobres e doentes – os mais abandonados –, no barracos e cortiços dos subúrbios, e nos hospitais públicos, repletos de tuberculosos e de outros doentes incuráveis. E que, para isso, ia de uma ponta a outra de Madrid, andando a pé ou de bonde, durante horas e mais horas.
Os alunos, incrédulos, fizeram apostas sobre a veracidade dessa informação e resolveram segui-lo às escondidas. Assim o fizeram, como espiões improvisados, e foram parar um dia ao extremo norte da cidade, ao bairro de Tetuán de las Victorias; e outro dia, aos arrabaldes perdidos de Vallecas, no sul da capital.
Com os mais “largados” moralmente, mostrava-se afetuoso, pronto para levar-lhes, com o sacrifício que fosse preciso, o estímulo da reconciliação com Deus e com o próximo, o bálsamo da misericórdia.  Menciono a seguir, abreviadamente, três “casos” paradigmáticos.
O cigano esfaqueado
Um bom dia, foi chamado para atender um cigano gravemente ferido numa briga de navalha.
Encontrou-o moribundo no Hospital Geral.  Perguntou-lhe:
– “Como se sente?”
– “Muito mal, padre… Pode confessar-me?”
–  “Claro!”
Acabada a confissão, o sacerdote, com um sorriso afetuoso, animou-o: – “Jesus perdoou você. Não quer beijar o crucifixo?”
O cigano, com os olhos banhados de lágrimas, gritou: – “Com esta minha boca podre não posso beijar Nosso Senhor!”
E São Josemaria: “Mas se você vai beijá-lo daqui a pouco no céu, e, além disso, receberá dele aquele abraço!…”.
O irmão da meretriz
Um dia chegou-lhe um recado insólito. Uma mulher, que exercia a prostituição num bordel, tinha naquele local um irmão menor, gravemente doente, em perigo de falecer de um momento para outro, e sem possibilidade de locomover-se. O rapaz pediu um padre, e essa irmã – mulher de fé, ainda que de prática lastimável – tentou, angustiada, uma solução. Falaram-lhe daquele sacerdote que a todos acolhia, e pediu que o chamassem. O Pe. Josemaria prontificou-se a ir ali para atender o moribundo, mas avisou que só apareceria acompanhado por um ancião venerável, figura conhecida e  respeitada em Madrid – de fato foi junto com ele –, e com a condição de que, ao longo de todo aquele dia, não se cometesse naquela casa nenhuma ofensa de Deus. A dona prometeu e cumpriu, e o irmão faleceu na paz de Deus, com todos os Sacramentos, aconchegado pelas palavras de fé e esperança do padre.
O ídolo caído
No Hospital del Rey de Madrid, imenso, atulhado de doentes até nos corredores, as visitas do Pe. Josemaria eram constantes. Muitas vezes o acompanhavam vários daqueles jovens cativados pela sua mensagem de santidade e apostolado no meio do mundo. Atendiam os doentes, quase todos tuberculosos, limpavam-nos, cortavam-lhes as unhas e o cabelo, lavavam os vasos de noite…
Entre as dezenas de tuberculosos terminais que o pe. Escrivá atendeu, sem recear o contágio, deparou certa vez com uma mulher que tinha ocupado, por família e relações, um lugar muito elevado na vida social. Agora era um farrapo humano. Durante anos, caiu na maior devassidão e acabou doente e abandonada por todos. No derradeiro trecho da vida, a Providência lhe fez encontrar um padre que não se escandalizou com ela, mas que lhe estendeu a mão consagrada para perdoar e abençoar, como Cristo fez com a pecadora e com a mulher adúltera.
Ajudou-a a se reconciliar com Deus, com grande amor e confiança, a receber a Extrema-Unção e a oferecer como expiação pelos seus erros a própria dor da sua enfermidade. A mulher ficou tão feliz, com uma paz tão luminosa e serena, que Josemaria diria depois: «Eu sentia uma inveja louca… Aquela mulher repetia, saboreando, feliz: “Bendita seja a dor!”» , aquela dor que, purificando-a, lhe abria as portas do céu.
Trecho do livro de F.Faus,  “O homem que sabia perdoar” (Ed. Indaiá)

Nenhum comentário:

Postar um comentário