domingo, 26 de janeiro de 2014

Lançai sobre Ele as vossas preocupações


"Marta, Marta, tu te preocupas e andas agitada!" (Lc 10, 41). Eis o sintoma fundamental de quem padece de ativismo: a preocupação. É o que o servo de Deus Papa Pio XII chamou de "heresia da ação" (Menti nostræ, 58).

Em grego, a raiz da palavra preocupação (μέριμνα) indica uma divisão interior (μερίζω – dividir). Esta divisão é fruto da soberba, do orgulho de quem está convencido de que salvará o mundo através de sua própria ação. É isto que dispersa e agita o coração. Dispersit superbos! (Lc 1, 51).

Por isto o ativismo é uma solidão!

Deus está espiritual e psicologicamente ausente de nossas ações. Quando em nossas obras de apostolado confiamos muito mais em nossa atividade do que na ação da graça de Deus, estamos doentes. Na solidão do ativismo, falta-nos o encontro com Deus na vida interior. O herege da ação age sozinho, pois tudo depende de si.

O Papa Francisco tem chamado a atenção para este pelagianismo espiritual e prático de quem conta muito consigo mesmo e não com os auxílios da graça. Este naturalismo pelagiano facilmente resvala para o humanismo pagão, para a secularização, para o laicismo profano e obtuso. Ou seja, a parada final deste itinerário é a apostasia de quem acreditou demais em si mesmo e já não crê em mais nada.

Nós padres e agentes de pastoral deveríamos fazer um sério exame de consciência e ouvir a palavra do Cristo: "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15, 5).

O remédio que nos leva à cura, no entanto, não é a heresia oposta do quietismo, mas sim uma atividade espiritual. Ou seja, não nos enganemos achando que para chegarmos à contemplação bastaria cessar a atividade. O caminho é marcado por três etapas: a) atividade exterior; b) atividade interior; c) contemplação.

Iniciamos acolhendo a graça de Deus que nos permite deixar de lado o pecado grave e fazendo o bem (ação exterior). Depois deve-se passar para uma luta aguerrida contra as doenças espirituais, as paixões desordenadas que impedem que nossa alma contemple a verdade de Deus (ação interior). Podemos assim chegar à contemplação, seja a mais simples caracterizada pela meditação da Palavra de Deus e pelo encontro com a humanidade e divindade de Cristo, seja a contemplação infusa que Deus concede aos seus santos.

É o caminho de colocarmos em prática o que nos exorta São Pedro: "Lançai sobre ele todas as vossas preocupações, porque ele cuida de vós" (1Pe 5, 7). É um ato repentino (ἐπιρρίπτω), quase violento, de lançarmos nos braços de Cristo nossas angústias e preocupações. Marta deve aprender a sentar-se aos pés do sacrário!

De resto, a nossa atividade pastoral consistirá sempre no transmitir aos nossos irmão aquele Cristo que nós encontramos pessoalmente em nossa vida interior.Contemplari et contemplata aliis tradere – Contemplar e transmitir aos outros aquilo que contemplamos (cf. Santo Tomás, Summa Theologiæ, II-II, q. 188, a. 7).

Este é o caminho da pastoral eficaz: "Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto" (Jo 15, 5).
Devem ser chamados a melhores sentimentos quantos presumam que se possa salvar o mundo por meio daquela que foi justamente designada como a "heresia da ação": daquela ação que não tem os seus fundamentos nos auxílios da graça, e não se serve constantemente dos meios necessários a obtenção da santidade, que Cristo nos proporciona. Do mesmo modo, porém, estimulamos às obras do ministério aqueles que, trancados em si mesmos e duvidosos da eficácia do auxílio divino, não se esforçam, segundo as próprias possibilidades, por fazer penetrar o espírito cristão na vida cotidiana, em todas as formas que os nossos tempos reclamam. (Pio XII, Exortação apostólica sobre a santidade da vida sacerdotal Menti nostræ, 58, 27 de setembro de 1950).

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