domingo, 3 de agosto de 2014

FAZER A VIDA AMÁVEL

O DIÁLOGO
Discussão, mutismo e diálogo
Como é desagradável a pessoa que tem o hábito de discutir tudo, de ser do contra em todos os assuntos de que se fala. Se isso acontece habitualmente, um dia após outro, no lar ou no lugar de trabalho, chega a ser muito difícil de suportar.
Também não é nada amável a pessoa trancada no mutismo, que fica “na sua” e não se digna tomar em consideração o que lhe dizem. Tudo lhe entra por um ouvido e sai pelo outro.
Em contraste com essas duas atitudes, o diálogo é um sonho, um ideal a que todos devemos aspirar, ainda que às vezes nos pareça inalcançável. “Ah, se eu conseguisse dialogar em casa, trocar impressões calmamente com a esposa, o marido, os filhos, em vez de andar às turras”. “Ah, se eu, no trabalho, tivesse um diretor que não se impusesse ditatorialmente, que não mandasse humilhando e ofendendo, que escutasse e fosse capaz de levar em consideração as opiniões dos colaboradores…”
Dificuldades e condições para o diálogo
 Desejamos dialogar e encontramos dificuldades por parte dos outros: seu modo de ser, seu caráter impositivo, sua desconfiança, sua teimosia, seu mau humor…
Certo, os outros, com frequência, dificultam o diálogo. Mas vamos começar pensando como é que nós o dificultamos. De início, façamos exame de consciência sobre três desculpas:
a) O nosso temperamento. «Às vezes – lemos no livro Sulco (n. 755) –, pretendes justificar-te dizendo que és distraído, avoado; ou que, por caráter, és seco, fechadão. E acrescentas que, por isso, nem sequer conheces a fundo as pessoas com quem convives. – Escuta: não é verdade que não ficas tranquilo com essa desculpa?».
Os defeitos de temperamento são um dos primeiros campos da nossa luta espiritual: devemos enfrentá-los e superá-los aos poucos com pequenas ou não tão pequenas mortificações (por exemplo,” vou me esforçar por cumprimentar toda manhã com um sorriso”, “vou pensar em alguma coisa interessante para contar em casa”, “vou perguntar a um colega algo sobre um assunto que o interessa vivamente”, “vou evitar falar quando sinto que começa a ferver a ira”, etc.).
b) A falta de tempo. Eterna desculpa. Convençamo-nos de que sempre achamos tempo para aquilo que desejamos de verdade. Quem quer, acha. É claro que, se somos egoístas, cheios de compaixão para conosco – “como estou cansado!”–  e de vontade de que nos deixem em paz, nunca encontraremos tempo para desligar a parafernália eletrônica, sentar na sala ou na copa e conversar em família; para sair uma noite por semana com a esposa; para comer uma pizza com o filho que mais precisa da compreensão do pai; para marcar um almoço com um colega.
c) O modo de ser dos outros: fechados, esquivos, explosivos, agressivos… Este, realmente, é um obstáculo, porque, para dialogar, é precisa a boa disposição de dois. Mas, por mais objetivas que sejam as dificuldades, nunca julguemos que as almas são mais frias e duras que o ferro frio. Coloque o ferro no fogo, e – além de se aquecer e ficar em brasa – vai se tornar moldável.
O “fogo” tem que ser o nosso esforço de afeto, de compreensão, de amabilidade, de simpatia, de bom humor. Quantas vezes não aconteceu que, num ambiente familiar assim aquecido pelo amor cristão generoso – com esforço, ainda que a contragosto –, a pessoa mais difícil se modifique, o ressentimento mais rijo se dobre, a língua mais amarrada se desate, e a “megera” (homem ou mulher) se torne, como na comédia de Shakespeare, “a megera domada”.
Condições do bom diálogo
Neste item, vou me basear nas condições do diálogo de que falava o papa Paulo VI  na sua primeira encíclica,Ecclesiam suam, de 6 de agosto de 1964, nn. 42 e seguintes. O papa tratava especificamente do “diálogo da salvação”, do diálogo de fé com todos, especialmente com os não cristãos ou não crentes. Mas os princípios que enuncia podem e devem ser aplicados a qualquer bom diálogo.
a) «O diálogo da salvação foi aberto espontaneamente por iniciativa divina: “Deus foi o primeiro a amar-nos”»(1Jo 4,10). A nós toca – comenta – tomar «a iniciativa, sem esperar que nos chamem». Ou seja, fazer com delicadeza, coragem e arte, a tentativa repetida de iniciar o diálogo: muitas vezes o melhor será abrir-nos em confidência com um ato de sinceridade.
b) «Nada, senão o amor desinteressado, deve despertar o nosso diálogo». É outra condição fundamental. Esforçar-nos por conseguir o diálogo, não por qualquer tipo de interesse espúrio (ficar bem, badalar, tirar vantagem), mas porque queremos o bem da pessoa, porque lhe temos afeto, amor desinteressado.
c) «O diálogo não obriga ninguém a responder…; deixa livre para corresponder ou fechar os ouvidos», diz a encíclica. Sem respeito pela liberdade alheia, não pode haver diálogo. Esse respeito é um convite para que a outra parte respeite também a nossa liberdade, e para que cada um respeite e leve a sério a opinião do interlocutor.
Quando há amizade e carinho, é fundamental prestar atenção, com verdadeiro interesse, ao que nos dizem. Na obra Anima mundi de Susanna Tamaro há o seguinte diálogo: «– Agora você compreendeu? – Compreendi o quê? – A coisa mais simples: o que é o amor. – E o que é? – É atenção».
d) O diálogo – lemos ainda na encíclica – tem «progressos sucessivos, humildes princípios antes do resultado pleno…, mas nem por isso o nosso diálogo deixará para amanhã o que pode conseguir hoje… Deve recomeçar cada dia; e recomeçar do nosso lado, não do outro a quem se dirige». Sim, faz falta paciência, paz, e uma constância confiante e incansável.
Qualidades do bom diálogo
Várias delas acabamos de ver ao tratar das condições do diálogo. O n. 47 da citada encíclica, menciona quatro das principais qualidades:
a) «Primeiro que tudo a clareza». Ou seja, que se entenda, sem ambiguidade nem confusão,  o que estamos dizendo.
b) «Outro caráter é a mansidão… O diálogo não é orgulhoso, não é pungente, não é ofensivo». Em sintonia com esse texto, vale a pena citar um ponto do livro Caminho: «Isso mesmo que disseste, dize-o noutro tom, sem ira, e ganhará força o teu raciocínio, e sobretudo não ofenderás a Deus» (n. 9).
c) «Outra característica é a confiança…, que produz confidências e amizade». Que – podemos comentar – abre as janelas dos corações e permite que neles entre a luz do entendimento mútuo, sem receios nem preconceitos.
d) E, por último, «a prudência, que leva a tomarmos o pulso à sensibilidade alheia e a modificarmos as nossas pessoas e modos, para não sermos desagradáveis nem incompreensíveis».
É um belo programa. Tentemos trabalhar melhor esse ideal precioso do diálogo, e não esqueçamos qual é a condição básica: «O convívio é possível quando todos se empenham em corrigir as deficiências próprias e procuram passar por alto – perdoar – as faltas dos outros; isto e, quando há amor que anule e supere tudo o que falsamente poderia ser motivo de separação ou de divergência» (São Josemaria, Questões atuais do Cristianismo, n. 108).

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