Não subam sem que Deus os faça subir!


Pois, isto que digo - que não subam sem que Deus os faça subir - é linguagem de espírito; entender-me-á quem tiver alguma experiência - que eu não o sei dizer - se, tal como o digo, não se
entende. Na mística teologia de que comecei a falar, deixa de trabalhar o entendimento porque Deus o suspende, como depois mais hei-de declarar, se o souber e Ele me der para isto o Seu favor.
Presumir ou pensar de o suspendermos nós, é o que eu digo que não se faça, nem se deixe de discorrer com ele porque ficaremos numa pasmaceira e frios e não faremos uma nem outra coisa.
Quando o Senhor suspende o entendimento e o faz parar, dá-lhe com que se espante e se ocupe e, sem discorrer, entenda mais no espaço dum Credo do que nós podemos entender com todas as
nossas diligências da terra em muitos anos. Mas ocuparmos nós as potências da alma e pensarmos fazê-las estar quietas, é desatino.
E torno a dizer, ainda que não se entenda: não é de grande humildade. Embora não haja culpa, pena sim que haverá, pois será trabalho perdido, e fica a alma com um desgostozinho como quem vai a saltar e a seguram por detrás: parece-lhe já ter empregado sua força e encontra-se sem efetuar o que com ela queria fazer. No pouco lucro que lhe fica, verá - quem nisto quiser reparar - este pouquito de falta de humildade que digo. Porque isto tem de excelente esta virtude: não há obra que ela acompanhe que deixe a alma desgostada.Parece-me tê-lo dado a entender e, porventura, será só para mim. Abra o Senhor os olhos dos que o lerem com a experiência, e - por pouca que seja - logo o compreenderão.
Bastantes anos passei em que lia muita coisa e não entendia nada; e também muito tempo em que, embora mo desse Deus a entender, não sabia dizer palavra para o dar a compreender, e não me custava isto pouco trabalho. Quando Sua Majestade quer, num momento, ensina tudo de maneira que me espanto. Uma coisa posso dizer com verdade: embora falasse com muitas pessoas
espirituais que me queriam dar a entender o que o Senhor me dava para que o soubesse dizer, o certo é que era tanta a minha rudeza que, nem pouco nem muito, isso me aproveitava. Ou assim o quereria o Senhor - para que não tivesse ninguém a quem agradecer -, pois Sua Majestade foi sempre o meu mestre. Seja por tudo bendito, que grande confusão é para mim poder dizer isto com verdade. Sem o querer, nem pedir (pois nisto não tenho sido nada curiosa - e teria sido virtude sê-lo senão em outras vaidades), deu-me Deus num momento a graça de compreender tudo com toda a claridade e de o saber dizer, de maneira que se espantavam meus confessores e eu mais do que eles, porque entendia melhor a minha rudeza. Isto é de há pouco e, assim, o que o Senhor não me ensina, não procuro saber, se não for coisa que toque à minha consciência.

 O Livro da Vida - Santa Tereza de Jesus - Autobiografia Capítulo XII

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